por Sri Prem Baba, em Satsang de março de 2010.

Pergunta: Querido Prem Baba, eu me levanto a cada dia de manhã sentindo muito pouca vontade de viver neste mundo. Me sinto obrigado a viver aqui. Sinto que tudo é passageiro. Então me pergunto: para que estamos vivos nesse mundo? A vontade de viver é mínima. Sinto a vida como uma carga. Tudo isso que menciono surge da mente?

Prem Baba: Sim, tudo isso surge da mente. Eu tenho recebido nesses últimos dias muitos emails de pessoas que estavam aqui, voltaram para as suas casas e estão passando por grandes desafios sendo o principal como sustentar a luz e a alegria, como sustentar o coração aberto no centro da matrix.

É um fato que, estando aqui comungando da presença física de um santo, num lugar sagrado, agraciado pela mãe Ganga e o poder dos Himalayas é natural que sua mente caia. Se sua mente não cai aqui, definitivamente não é hora de experienciar o estado de não-mente. Aqui tem todas as condições para você experienciar a não-mente e muitos experienciam isso. Alguns nem sabem que estão experienciando, mas vão saber quando saírem daqui. Existe um campo de prece nessa circunferência. É um lugar fora do tempo. Aqui você precisa de esforço para se lembrar do dia da semana ou do mês em que estamos porque está completamente desconectado de tudo. Mas, ai você chega ao aeroporto da sua cidade e começa a se lembrar que tem contas para pagar, que tem compromissos e tem uma série de enredos karmicos ainda não integrados. Então, a sua consciência cai. Ela estava no número cem das escala e cai para o menos um.

Esta é uma questão muito importante para os que estão aqui. Se considerarmos que aqueles que estão realmente comprometidos com a religiosidade vertical são 5% da população mundial (já sendo generoso no número) é muito claro que a densidade dos grandes centros é muito grande. As forças contrárias que operam contra a evolução da consciência são muito intensas. Mas, a grande questão é: porque você vibrou e entrou na sintonia das forças contrárias? Porque elas ainda existem no seu sistema? Porque não foram purificadas e integradas. Você geralmente nota que o primeiro sintoma é a perda da conexão com o mestre, com a luz, com seu eu superior. Você começa a experimentar sentimentos negativos como tristeza, angústia, medo, raiva, principalmente quando ainda não se sente encaixado na matrix; quando você ainda não está fazendo aquilo que gosta de fazer; quando você não está colocando em movimento os dons e talentos que Deus lhe deu.

Eu sinto que a principal chave que abre a porta para sustentar a conexão é o serviço desinteressado. Serviço desinteressado não quer dizer que você não precisa ganhar dinheiro; significa apenas que ele não está em primeiro lugar. Em primeiro lugar está a vontade sincera de servir a Deus e de ser um elo na cadeia de felicidade; a vontade sincera de ver o outro brilhar; a vontade de colocar em prática suas habilidades para fazer o amor e a paz no mundo crescerem. Nada pode te ajudar mais a sustentar a conexão com o plano espiritual do que o serviço. O que mais pode te dar alegria de manhã além da consciência de estar acordando para trabalhar para Deus? Sua vida começa a fazer sentido. Você começa a entender que nasceu para alguma coisa. Eu sinto que a questão principal é que talvez você ainda não tenha acordado para o serviço.

Mais uma vez eu trago a história de Jonas. Eu vou repetir quantas vezes for necessário.

Jonas, que é um personagem da bíblia cristã, em algum momento ouviu a voz de Deus pulsando dentro dele: “Jonas, vá para Ninivi pois eu vou falar através de você. Você será um mensageiro da minha palavra para poder salvar o povo daquela cidade”. O que ele fez? Foi para a direção oposta. Ele viu um barco parado no porto e clandestinamente embarcou. Ele se alojou no porão do barco e dormiu profundamente. Já quando estavam em alto mar, Deus então mandou uma grande tempestade e o barco balançava muito. Toda a tripulação ficou desesperada porque a morte era eminente. O desespero tomou conta de todos enquanto Jonas continuava dormindo. Alguém o encontrou e disse: “Como você pode estar dormindo nessa situação? Estamos quase à beira da morte!” Naquela época eles usavam dados para adivinhação. Então eles jogaram para tentar entender porque a natureza estava tão furiosa e viram que havia um intruso no barco e esse intruso era Jonas. Eles resolveram jogar Jonas ao mar. No mesmo instante parou a tempestade. Jonas foi engolido por um monstro marinho e quando estava dentro do monstro, finalmente se lembrou de Deus. E Deus falou novamente para ele ir para Ninivi, pois iria falar através dele. Finalmente ele aceitou fazer o que Deus estava dizendo e o monstro o botou para fora. Ele foi para Ninivi contra sua vontade. Por quê? Porque ele guardava ressentimento em relação ao povo de lá. Ele não queria que aquelas pessoas fossem salvas. “Para quê salvar aquele povo?” Ele queria vingança por conta de marcas ancestrais que carregava. Eram pactos de vingança que ele trazia sem saber por quê. Sabe aquela briga que começou lá trás, com o bisavô, tataravô… Jonas nem sabia por que estava brigando.

Eu sinto que Jonas que você se recusa a fazer a vontade de Deus. Você está dormindo no porão do barco que está a um fio de submergir.

Eu vou fazer outra analogia: sua casa está pegando fogo e sua família está lá dentro. Você foi avisado que a casa estava pegando fogo e cabe a você correr para salvar sua família, mas nessa hora você para, vai tomar um chai, vai comer um biscoito. Então eu sinto que nessa fase é muito importante entrar em contato com a parte em você que está se negando a servir. Essa parte em você que se nega a levantar de manhã, sendo que a casa está pegando fogo e o barco está afundando.

Meus amados amigos, a casa está pegando fogo, o barco está afundando. É verdade. Você está se negando a ir para Ninivi. Eu não digo isso para que você se sinta culpado, eu falo isso para que você possa querer trazer para o campo aberto o seu não para a vida. O que mantém você na cama, ou seja, o que te mantém estagnado, paralisado ou procrastinando, são os sentimentos negados que estão congelados no seu sistema. Este é o alimento para essas criações da mente. É isso que faz com que você entenda que não há o que possa ser feito. O barco vai afundar mesmo, já que é tudo ilusão, para quê eu vou fazer alguma coisa? Esse é um truque da mente que é alimentado pelos sentimentos negados. A verdade é que você está identificado com uma profunda revolta. Tem muita raiva e ódio dentro de você. Esse ódio age de acordo com os programas que você tem. Alguns vão sair por ai quebrando as coisas, outros vão ficar parados se quebrando por dentro. Esse ódio é que gera a estagnação, os fracassos, os acidentes, doenças e mortes; também todo o tipo de sintoma emocional como medo, angústia, pânico…

Neste caso é necessário ter coragem para abrir o baú dos sentimentos negados, pois eles precisam ser elaborados. O ódio e o medo devem ser transformados. Senão, é claro que seu barco vai afundar e sua casa vai pegar fogo. A questão é que você não aceitou que a rosa tem espinhos; não aceitou suas perdas; não aceitou os desafios que a vida lhe ofereceu com o propósito de te ajudar porque não pode compreender que o propósito era esse. Você achou que Deus estava contra você, que a vida estava contra você. Você se sente injustiçado e quer fazer justiça com suas próprias mãos. Uma das formas de fazer justiça é se negando a servir insistindo no pacto de vingança. Uma das formas que o pacto de vingança se manifesta é você ficar parado querendo receber; é você pensando: “Se Deus fez isso comigo, ele tem obrigação de me dar algo em troca”. Sabe qual é o nome disso? Birra. É quando a criançinha não ganha uma coisa e fica chorando desesperada. A birra está fundamentada na obstinação que é a vontade utilizada pela criança ferida para poder se vingar pelo fato de não ter sido amada, pelo fato de não ter acontecido do jeito que ela queria, ou seja, pelo fato da rosa ter espinhos. Mas, a rosa tem espinhos e é inevitável que você se espete. Parte do seu trabalho pessoal é aceitar e perdoar. Eu sei que você se acha incapaz de perdoar e as vezes isso é muito difícil mesmo.

Hoje foi um grande grupo para o ABC da Espiritualidade e estão com o compromisso de encarar o que tem no porão, o que tem no baú. Então eu me lembrei de um caso. Um rapaz lembrou que o pai dele tentou matá-lo afogado no tanque. Ele foi muito torturado pelo pai até que seu pai tentou matá-lo. Então ele me perguntou: “Prem Baba como eu posso perdoar esse homem?”

Existe mesmo este momento em que você se sente limitado. “Não posso, eu sou impotente, isso não é humano; perdoar esse pai não é humano; perdoar tanta maldade não é humano”.

Então, como eu dei o exemplo da bíblia cristã, tem outro exemplo do mestre Jesus que estava sendo severamente torturado, pregado na cruz, sendo apedrejado e ridicularizado de todas as formas possíveis e imagináveis. Então ele disse: “Pai, perdoe-os, pois eles não sabem o que fazem”. Se isso aconteceu ou não aconteceu, não é o mais importante, o que importa é o ensinamento. Esse também é parte do medo de Jonas que é o medo de ser incapaz dessa bondade infinita; desse perdão infinito, ou seja, ser capaz de perdoar quem lhe machucou e abrir mão da vendenta, da revolta que lhe dá um senso de identidade. Mas, você já sabe o que essa identidade tem lhe causado. Não sabe?

O que te ajuda a se colocar a serviço é tomar consciência de que você não quer servir. Tomar consciência de que tem um eu dentro de você que quer briga. E o jeito que você encontrou para brigar é ficar parado e deprimido. Isso é estratégia de guerra. Então, é importante encontrar o general que está dando este comando. Quem em você se recusa a levantar e colocar seus dons e talentos a serviço do mais? Quem em você se recusa a ir para Ninivi? Você deve identificar essa trama da sua criança ferida. Essa é a essência do ABC da Espiritualidade: porque você sabota a sua felicidade? Porque você quer se destruir? Quem em você que sabota a sua felicidade? Cabe a você identificar esse eu. Eu lhe dou a direção e o suporte. Eu posso ir com você até lá no baú, mas quem abre a caixa é você. Esta é sua parte.

Esse mundo nunca esteve tão necessitado do seu amor, ou seja, da forma única em que o amor se expressa através de você. O amor se expressa exclusivamente através de você através dos seus talentos e dons. Se recusar a distribuir os presentes que você trouxe (porque você encarnou com esses presentes) significa que você está com raiva, está se sentindo traído, injustiçado, magoado, ressentido. O caminho é olhar para isso. Nessa hora até a energia cai (a luz do salão se apagou). Porque é difícil olhar para isso. Isso requer um tremendo comprometimento com a verdade.

Eu falei que o ódio negado é o gerador das repetições negativas; ele é o causador de todas as misérias da sua vida. E o que te impede de identificar esse ódio é o orgulho de aceitar que existem essas imperfeições. É vergonhoso carregar tais mazelas no sistema. Especialmente para você que é tão espiritualizado, que faz tanto sadhana e dedica tanto tempo a vida espiritual. Para você é muito mais difícil admitir que tenha tantas imperfeições. Porém, a perfeição divina só te visitará quando você puder aceitar as imperfeições humanas. É isso que desenvolve a primeira qualidade do discípulo: humildade. Quando você descobre a humildade a luz volta (a energia voltou no salão). Mas, para chegar nessa humildade é um trabalho danado. Essas são as artimanhas do orgulho. É uma criação mental? Sim, mas ela tem vida própria; é um complexo autônomo e age como uma entidade e cabe a você identificar e transformar.

Acho que respondi também essa pergunta: “Eu fico facilmente perturbado e sofro com barulhos demasiadamente altos. Trânsito e também com minha mãe. Como posso me proteger nessas situações? Como posso me tornar mais estável?”

Essa foi uma pergunta bem humorada porque é um fato que existem sentimentos negados em relação a sua mãe que você deve elaborar. A melhor proteção que existe é o amor que flui do seu coração. Essa é a grande proteção. Você pode usar o escudo que for; o mantra que for; a reza que for, mas você ainda estará fugindo da vida. Como você vai se proteger do seu ódio? Enquanto você temer o seu ódio e negá-lo você será vítima dele. Você pode passar sua vida inteira rezando para espantar o mal, mas ele te pega em cada esquina porque na verdade o mal está dentro de você. Então, o que vai te proteger é transformar o mal dentro de você. Para isso, você tem que conhecê-lo. Quanto mais você nega, mais o seu sistema nervoso vai se estressando até chegar um ponto em que você não agüenta nem um chiado. Isso é tensão; uma grande tensão porque você está negando.

Então, meus amados, nós fizemos hoje mais uma revisão a respeito da primeira esfera do trabalho que eu chamo de ABC da Espiritualidade, ou seja, é a derrubada das barreiras que te separam do seu eu real para tomar consciência daquilo que te move. Eu sinto que, se você pode identificar as pulsões inconscientes que te movem e pode transformá-las, poderá se colocar como um elo na cadeia de felicidade; poderá se colocar a serviço do grande mistério para poder fazer desse mundo um mundo melhor. Mas, não através da máscara do caridoso, mas através da autêntica caridade, do autêntico altruísmo.

O karma yoga é a base. Você vem aqui se abastecer para ter o que oferecer. É assim que a alegria passa por você, quando você serve desinteressadamente.

 

Abençoado seja cada um de vocês. Receba a benção que te ajuda a compreender o poder do serviço desinteressado. Até o nosso próximo encontro.

NAMASTÊ!

Deixe um comentário


× 2 = dez